quarta-feira, 9 de setembro de 2009

aparências

Se chamava Ana. Tinha longos cabelos escuros, sobrancelhas finíssimas e um leve rosado nos lábios. Todo dia, quando seu despertador tocava, apertava pelo menos três vezes na opção soneca. Logo depois levantava, tomava um banho quente, fazia uma térmica de café passado e se vestia para sair. Toda vez que passava pela porta da frente do prédio, lembrava que tinha esquecido de alguma coisa e voltava correndo para buscar. Caminhava por um longo caminho até pegar um táxi que a levaria até seu trabalho. Cursava jornalismo e dançava ballet. Gostava de cozinhar para si mesma. Tinha um maltês chamado Pluto e um namorado chamado João.

João tinha lábios grossos e extremamente delineados, que se encaixavam perfeitamente em seu rosto. Seus cabelos encaracolados insistiam em cair por cima de seus olhos azuis que brilhavam quando batia o sol. Todo dia, acordava e levantava na exata hora em que seu despertador tocava. Tomava um banho morno, enchia um copo d'água e se vestia para sair. Andava quatro quadras sempre pelo mesmo lado da rua até chegar no ponto de ônibus, que o levaria até o trabalho. Era advogado e gostava de sair para beber. Gostava de cachorros mas não tinha nenhum porque tinha preguiça de limpar. Gostava dos pães quentes da padaria ao lado do seu trabalho. Namorava a Ana e tinha uma turma de amigos sérios.

Maria tinha cabelos curtos e loiros e lindos olhos cor de mel. Não tinha um despertador. Todo dia, quando acordava, por volta do meio dia, saudava o sol e tomava um banho gelado. Fazia um chá sem açúcar, ligava o aparelho de som e se vestia para sair. Nunca esquecia nada em casa, até porque não tinha nada que precisasse, obrigatoriamente, carregar consigo pela rua. Não tinha profissão e nem fazia faculdade. Bebia todos os dias num barzinho da esquina até que não soubesse mais quem era. Tinha um vira latas chamado Tom Zé e uns amigos de cabelos verdes. O máximo que andava, todo dia, era até a padaria ao lado de sua casa para comprar os melhores pães quentes de seu mundo. Não tinha namorado e nem pensava nisso com frequência.

Personalidades vão e vem. Fica tudo tão mais claro quando estão catalogadas...

estranho de novo

aquele sorriso não era mais tão conhecido
sabia que já tinha visto
mas puxa
aquelas covinhas
que já foram tão amadas
tão tocadas
tão beijadas
aquelas manchinhas rosadas nos cantos dos olhos...
céus, como gostava daquelas manchinhas nos cantos dos olhos.
não faz mais sentido agora
agora isso é tudo parte de um rosto
de mais um rosto
apenas mais um rosto.
não podia imaginar sua vida longe daqueles dedos compridos
daquelas tão famosas mãos de pianista
daqueles dentes quebradiços
dos lábios tão lindos
mas agora são só traços de mais um rosto
porque você se tornou um estranho outra vez.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

sopros

tinha uns pensamentos estranhos.
há muito, muito tempo, cara, muito tempo mesmo. a verdade é que ela não sabia quanto tempo fazia. já tinha se perdido em tantos números que insistiam em entrar e sair da sua cabeça. tentava traçar um paralelo entre aquele tempo e esse, mas era simplesmente fora dos padrões o que vivia hoje.
pela primeira vez em muito tempo, conseguia sentir o ar em seus pulmões.
(e isso não é uma metáfora.)
não se lembrava, bem em verdade, qual fora a última vez que sentira vontade de usar aquele moletom velho do mickey mouse, mas resolveu desenterrá-lo do guarda roupas.
foi isso que fez quando acordou, na manhã seguinte ao desejo. vestiu-se com rapidez, sem se interessar pelo espelho, pelos cabelos despenteados, pelas marcas do travesseiro nas bochechas, simplesmente enfiou pela cabeça a velha peça de roupa.
colocou os fones nos ouvidos e se preparou para passear pelo apartamento, tão vazio e ao mesmo tempo tão barulhento. como se sentia bem naquele lugar... era uma coisa inexplicável. lá ela se sentia em casa de verdade, como nunca havia se sentido. lá ela tinha suas canecas coloridas, seus talheres vermelhos, sua louça preta e vermelha, seu sofá preto e fofo, suas almofadas tão queridas... e, acima de tudo, lá ela tinha seu moletom do mickey mouse.
ouvia uma música alegrinha do ting tings (não que o ting tings tenha muitas musicas alegrinhas), e enquanto rabiscava pelo chão alguns passinhos de dança, apreciava a maravilhosa vista da cidade mais linda que já tinha visto. da janela da sala, via predios antigos, pessoas caminhando pelas ruas, o parque cheio de verde, a rua do arco cheia de vendedores e artistas dos mais variados.podia ver, muito ao longe, a parte saliente do prédio da universidade, tão antigo e ao mesmo tempo tão novo. novo para ela, que acabara de ingressar naquele maravilhoso curso daquela maravilhosa universidade naquela maravilhosa cidade cheia de maravilhosas pessoas...
como eram maravilhosas aquelas pessoas! que mergulho era ficar observando-as. o que passava por aquelas todas aquelas mentes? que música estariam cantando mentalmente? estariam preocupadas com alguma coisa? não, não poderiam estar. não havia nada que pudesse preocupar alguém que estivesse tomando chimarrão na grama do parque naquele domingo tão ensolarado, naquela cidade tão perfeita. riu sozinha ao se pegar pensando nas pessoas, como era boba de vez em quando, nesses momentos de lucidez.
lucidez feliz, essa.
lucidez agora ao som de jupiter maçã.
cantando beatle george, tomando um chá, olhando para aquelas pessoas, só com um rabinho estranho no cabelo desgrenhado e umas meias velhas nos pés, sentou-se no sofá preto e fofo. encostou a cabeça em uma das almofadas tão queridas, soltou a xicara por um instante, e pegou num sono doce e ensolarado.
nos seus sonhos, ela desejava que todas as pessoas do mundo tivessem um moletom velho do mickey mouse...


.(e você, tem um moletom do mickey mouse?).